A displasia coxo-femoral foi descrita no cão no ano de 1935. A diferença entre o homem e o cão é que a displasia coxo-femoral no cão é uma doença hereditária, mas não é congénita: o cão não nasce com displasia, mas devido à influência de factores ambientais, alimentares, excesso de exercício, etc., e unida a um importante componente genético, origina-se um desequilíbrio entre a massa muscular e o desenvolvimento esquelético, resultando numa falta de congruência entre o acetábulo e a cabeça do fémur. Basicamente temos dois tipos de displasia.

  1. Acetabular – Típica no Pastor Alemão e Labrador  Retriever, em que existe aplanamento do acetábulo associado a uma escassa cobertura acetabular da cabeça femoral.
  2. Do colo do fémur – Caracteriza-se essencialmente pela alteração do ângulo femoral e na falta de pressão ao nível do acetábulo. A perda de contacto entre a cabeça femoral e o acetábulo provoca instabilidade articular e laxidão coxo-femoral, originando posteriormente a osteoartrose. Afecta classicamente raças grandes e gigantes. Foi descrita em mais de 70 raças. A incidência é de 48% em S. Bernardos, 31% em Bullmastiff, 23% Golden Retriever, 22% Rottweiller, 21% Pastor Alemão. Está descrita em raças pequenas como o Cocker Spaniel e inclusivamente em gatos (persa). Afecta de forma bilateral em 90% dos casos, não existindo predisposição sexual.

 

Factores que predispõem ao aparecimento da displasia coxo-femoral

 

 Factores Genéticos – A hereditariedade desta doença tem um carácter poligénico (não se sabe quantos genes intervêm). Muitos animais podem mostrar um fenótipo normal com radiografia correcta, mas serem genotipicamente portadores do carácter displásico e transmitir à descendência, o que complica grandemente a sua erradicação. A constituição da própria raça é também um factor determinante da apresentação de displasia, assincronia entre o desenvolvimento ósseo e muscular (Ex: Labrador), morfologia intrínseca do acetábulo pouco profundo no Pastor Alemão, mais côncavo no Boxer, a angulação e orientação da cabeça do fémur no Mastin e Montanha dos Pirinéus, e a laxidão articular típica do Pastor Alemão, explicam as diferentes percentagens de incidência em raças de peso e desenvolvimento ponderal similares.

 

Factores ambientais – Um excesso de alimentação. Ligado, geralmente, à alimentação “ad libitum” influência a velocidade de crescimento do animal. Um animal jovem, com uma arquitectura óssea ainda não compacta, que tem de suportar um peso excessivo poderá estar disposto a desenvolver Displasia da Anca. A sobrealimentação com dietas de elevado teor energético cálcio, vitaminas, etc., devem ser evitadas sobretudo na idade máxima de crecsimento, entre os 3 e os 8 meses de idade.

 

Exercício  – Factor a considerar na etiopatologia da displasia da anca. Exercícios violentos incrementam a laxidão articular. Um exercício moderado que permita um desenvolvimento muscular apropriado aumenta a estabilidade articular e ajuda a prevenir a displasia de anca.

Sintomas clínicos são muitos varíáveis e com uma certa independência das lesões osteoartrósicas, radiológicamente evidentes. Não há um paralelismo entre sintomas clínicos e sinais radiográficos, apresentando-se um amplo leque de possibilidades destes animais displásicos assintomáticos a animais paraplégicos.

Uma marcha anormal, juntando os curvilhões, dificuldade em levantar-se ou saltar, dor à manipulação da extremidade sobretudo em hiper extensão, etc., são sinais sugestivos da displasia que terão de ser confirmados com uma radiologia.

 

Classicamente distinguimos dois grupos de animais com sintomatologia clínica

Animais jovens de 6 a 12 meses de idade que manifestam sinais de forma, mais ou menos, intermitente e transitória. Este facto deve-se à existência de micro fracturas. Dolorosas, que acontecem sobretudo no bordo acetabular por laxidão articular. Posteriormente a rápida ossificação das mesmas leva a um desaparecimento mais ou menos transitório da dor.

Um segundo grupo de animais estaria representado por animais de 4 a 5 anos ou mais quando já se estabeleceram lesões irreversíveis de oseoartrose. Nos animais jovens podemos tentar realizar um diagnóstico precoce da laxidão articular mediante o teste de Ortolani. Coloca-se o animal em decúbito lateral, pressiona-se o joelho na direcção do trocânter o que facilita a luxuação da cabeça femoral. Mantendo a pressão, movemos a extremidade para o exterior (abdução), o que vai provocar a recolocação da cabeça do fémur no interior acetábulo. Em cachorros com laxidão articular (predisposição para a displasia), notamos um ruído quando a cabeça femoral recupera a sua posição normal. 

O valor do diagnóstico é discutível, já que se é positivo o animal geralmente terá displasia, se é negativo a dúvida persiste.

O sinal de Bardens também se utiliza para determinar o excesso de laxidão articular de forma precoce em cachorros. Consiste em tentar separar a cabeça femoral do acetábulo mediante uma força de abdução alta, com o animal posicionado em decúbito lateral. Cerca de 75% dos animais positivos a estes testes serão displásicos na idade adulta.

 

Diagnóstico radiológico

O estudo radiológico é actualmente o único meio de diagnosticar a displasia coxofemoral. No Pastor alemão, por exemplo a fiabilidade de detecção por radiografia é de 16% aos 6 meses de idade, 70% com um ano de idade, 82% aos 18 meses de idade e 95% aos 2 anos de idade. A radiografia oficial deve ser feita aos 18 meses (nunca em fêmeas com o cio). A técnica radiológica standard, aceite universalmente, requer a sedação ou anestesia do animal, colocando o animal em decúbito dorsal com os posteriores distendidos, paralelos e submetidos a rotação interna de modo que as rótulas se situem sobre a tróclea do fémur, evitando a rotação da pélvis. A simetria deve ser perfeita.

A classificação dos graus de displasia varia segundo os países. A classificação aceite no nosso país, é a proposta pela Federação Cinológica Internacional (FCI): Grau A

Nenhum sinal de displasia  Grau A
Forma de transição Grau B
Displasia Leve Grau C
Displasia Moderada Grau D
Displasia Grave Grau E

 

Com a finalidade de realizarmos a leitura correcta da radiografia recorremos a medidas coxo métricas:


(Radiologia Oficial FCI)

(Leitura do ângulo de Norberg-Olson)

Ângulo de Norberg-Olson

Ângulo Cervico-Diafisário

Ângulo de retro e anteversão

Cobertura Acetabular

 

Tratamento

Conservador – Previne a prevenção da lesão cartilaginosa articular no cão jovem e o alívio da dor secundária à artrose no cão adulto. Repouso, redução de peso e uso controlado de anti-inflamatórios.

Cirúrgico – As técnicas cirúrgicas da Displasia da Anca destinam-se a suprimir a dor ou a corrigir as más formações articulares.

Pectinectomia – O músculo pectíneo actua como adultor. A contração deste músculo numa anca displásica predispõe à sub luxação e aumenta a dor. A tenotomia ou tenectomia do pectínio consegue obter um efeito anti álgico  a curto prazo, mas não modifica a progressão dos sinais de osteoartrose. A maioria dos pacientes volta a demonstrar sinais clínicos num futuro mais ou menos próximo em função da idade e do grau de osteoartrite presente, no momento da cirurgia. Em casos muito específicos recomendamos esta cirurgia.

Osteotomia Tripla – A osteotomia tripla do púbis, ísquion e ilíon, liberta a parte acetabular, de forma a que se pode reorientar, conseguindo uma maior congruência da mesma com a cabeça femoral, diminuindo assim, a laxidão da cápsula articular, e evitarmos as lesões degenerativas da articulação. O candidato ideal para uma osteotomia tripla é um animal com displasia acetabular de  7 a 12 meses de idade com laxidão articular que clinicamente manifeste sintomatologia e que não apresente sinais de degeneração articular. Podemos rodar o acetábulo 20, 30 ou 40º.

O hospital Veterinário do Porto com uma cirúrgica chefiada pelo Dr. Mário Santos, tem vindo ao longo de 4 anos, a realizar as osteotomias triplas em muitos animais afectados, por esta doença de todas as regiões do país. Cremos que é o melhor método cirúrgico para corrigir a displasia, sendo a seleção dos pacientes, assim como, a idade, de primordial importância para que o êxito seja de 100%.

A rotação no caso acima descrito foi de 30º, a radiografia foi efectuada após a cirurgia. Podemos verificar a introdução total da cabeça femoral no acetábulo no pós cirúrgico. Dartroplastia. É a cirurgia mais recente que utilizamos para corrigir a displasia em animais que já passaram os 12 meses de idade e que já não podem realizar uma osteotomia tripla. Contudo não são candidatos a uma cirurgia de prótese da anca ou muito menos a uma artroplastia por excisão. A cirurgia consiste em aumentar o acetábulo com uma técnica bastante eficaz e que mantém a cabeça do fémur estabilizada. Temos vindo a realizar esta técnica, desde há dois anos, conseguindo resultados extraordinários.

Artroplastia

A excisão da cabeça do fémur só deve ser utilizada como último recurso. O fim que perseguimos é a supressão da dor, eliminando a articulação. A recuperação funcional é mais lenta.

Prótese Total da Anca

A substituição da articulação coxo femoral em animais com osteoartrose por uma prótese é uma técnica cada vez mais utilizada. Geralmente utilizam-se próteses cimentadas com uma percentagem de êxito de 60 a 100% em função da técnica utilizada.


Prótese da Anca realizada no Hospital Veterinário do Porto